Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Evanilton Gonçalves página 068 Crônica Levanta e anda Emdeterminadosmomentos da vida, as atribu- lações me fazem enxergar o mundo girando ao contrário (como acontece em Vênus e Urano). Já aconteceu com você? Pois é. Isso me lembra uma canção de Siba que diz assim: “Toda vez que eu dou um passo / o mundo sai do lugar”. O fato é que a vida, essa jornada misteriosa e ins- tigante, nos impulsiona a fazer cada vez mais perguntas, na mesma medida em que nos re- vela nosso muito não saber. O que fazer com tantas dúvidas? Só mesmo a descoberta da ignorância, essa pa- lavra que o dicionário explica como “estado de quem ignora”, que traduzo como é bom saber que não sei tudo, pode nos incentivar a progre- dir. Afinal, como diz a filosofia milenar: é im- possível aprender aquilo que já achamos que sabemos. Acho que mainha explicou melhor isso quando me disse uma vez: é a curiosida- de que move o mundo, meu filho. Lembro-me dessa sabedoria materna e me vem à mente aquele meme: “sem defeitos, perfeita, nun- ca errou”. Porém, mainha é um ser humano como todos nós e, inserida na vida real como todos nós, sim, também comete falhas, erra. Foi ela também que me ensinou: ninguém nasce sabendo tudo e reconhecer nossos er- ros e aprender com eles é uma virtude. Na confusão do mundo, crescemos e muda- mos. Tentamos negar algumas irresponsabili- dades. Assumimos responsabilidades. A vida, no entanto, não se resume a uma sinuosa fila burocrática em que esquecemos nossa identi- dade e nos vemos de mau humor. É, antes de tudo, abandonar as muralhas e enxergar os en- contros possíveis, é deixar e receber um tanto. Caetano Veloso largou o verbo: “Gente é pra bri- Evanilton Gonçalves
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