Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Evanilton Gonçalves nasceu em Salvador (BA), onde reside. Par- ticipou, como escritor convidado, de diversos eventos nacionais e internacionais. Já teve contos publicados em diversas revistas e antologias dentro e fora do Brasil. Publica crônicas regularmente no jornal A Tarde. Editou, junto com o poeta Ricardo Aleixo, a re- vista de literatura Organismo nº 8. Publicou o livro de prosa curta Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo (Paralelo13S, 2017, segunda edição em 2019) e o romance O co- ração em outra América (Paralelo13S, 2021). Evanilton Gonçalves página 069 lhar / não pra morrer de fome”. E Carolina Ma- ria de Jesus, que passou fome, catou materiais recicláveis nas ruas para sobreviver e escreveu uma literatura tão orgânica que atravessa os tempos, disse que “Quem não tem amigo, mas tem um livro, tem uma estrada”. Acho que é isso: apesar de tudo, é preciso des- bravar os caminhos. Temos muitos sentidos. Talvez por isso a sero- tonina se agite emmeu corpo e me alegre quan- do sinto cheiro de livro novo. Comvocê também é assim? Celebrar a vida vivendo inúmeras vi- das. Tão maleável quanto a língua portuguesa são os espaços que se percorrem. A cada novo passo, olho pro céu, contemplo as nuvens. Quando resolvo mergulhar em um estado con- templativo, encontro nas artes um refúgio que me impulsiona para um outro tempo. Isso quer dizer: desviar da velocidade desenfreada do mundo. A mágica acontece quando meu rosto deixa de ser iluminado, por um momento, pela luz branca de meu smartphone e meus olhos se permitem contemplar uma outra organiza- ção possível do mundo. A sensação é de cami- nhar tranquilamente pela margem. Abro um livro. Quem escreve sobre as coisas vividas ou imaginadas nos oferece um horizonte em que a gente pode se perder e se achar. Penso na palavra pa-la-vra. Assim é a vida: profundidade e superfície. Fecho os olhos e isso me faz ensaiar um canto. Levanto e ando com mais disposição para co- meçar de novo, encarar meus medos. Fone nos ouvidos. As rimas de Emicida me dão a letra: “você não percebeu / que você é o único repre- sentante / do seu sonho na face da terra?”. © Rimara Motta

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