16 O feriado transcorreu como deve transcorrer um feriado adolescente longe dos pais: vômitos, gritarias, desmaios, co- mas alcoólicos, queimação de filme com os vizinhos e, num paroxismo de demência suicida inspirada pelo efeito dos inalantes, a tentativa de me atirar nu pela sacada do aparta- mento. A viagem também foi muito marcante pro Ricardo e pro amigo dele, porque uma menina morreu durante um salto no aeroclube. Tinha muito vento e ela não conseguiu operar direito o paraquedas. Acabou caindo sobre os fios de um poste de luz e foi eletrocutada. Acho que os dois nunca mais saltaram depois disso. De volta à cidade, passei a encontrar o Ricardo regular- mente. Ele frequentava os mesmos lugares que eu: o Lola, o Fim de Século, o Ocidente, a Lancheria. Além disso, ele tinha uns óculos escuros descolados, uma câmera fotográfica e ain- da tocava guitarra, que pra mim era o mais legal. O fato era que eu queria desesperadamente me infiltrar no maravilhoso mundo do ronquenrol e, a despeito do primeiro convite ter sido pra ser o produtor e não vocalista da banda do Ricardo, não pude recusá-lo. Eu não tocava nada mesmo. Não me res- tavam muitas opções. A banda chamava Brigitte Bardot, além dele na guitarra (purple, bizarra, réplica de uma guitarra do Prince que já tinha sido do Edu K na fase em que ele imitava o Prince), tinha um tecladista, um vocalista (que eu achava péssimo, por óbvias razões), uns irmãos muito estranhos da Restinga, fissurados em Alice in Chains e Soundgarten, sem- pre de camisa de flanela, que tocavam baixo e guitarra, e o Marcos. O Marcos tocava batera e era colega de trabalho do Ricardo numa empresa que produzia óleo de soja. Um cara mais velho de uns 24 anos, idade que eu – no esplendor dos meus teens – achava o cúmulo da velhice. A sede da empresa de óleo de soja ficava no centro, per- tinho do banco onde eu trabalhava. Depois do expediente,
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