26 Podíamos ser jovens, mas não éramos burros. As tratativas não vingaram e o próprio Violeta durou pouco. Poucos me- ses após a nossa inauguração, o cunhado do Marcos tinha um bar falido, pilhas de contas a pagar e um monte de vasi- nhos de violeta. Graças também à situação desesperadora, já estávamos tentando alugar qualquer casa à disposição. Alguns desses imóveis não apresentavam as mínimas condições, mas, por pura falta de opção, somada à inexperiência e à ânsia de abrir logo o bar, a gente achava que poderiam servir. Fazíamos pla- nos e projetos, desenhando mentalmente o palco, o balcão e a pista de dança conforme a casa que estivesse pra alugar. Casas imperfeitas, mas prováveis, diante da nossa miopia ansiosa. Por sorte, as imobiliárias que suspeitavam de nossas inten- ções e aparência nos impediam de alugá-las. Hoje, depois de todo o know-how (ou qualquer outra expressão que signifique aguentar por oito longos anos a encheção de saco que é ter um bar e, mais importante, não ir à falência nem ser preso, processado ou exposto à humilhação pública e, ainda!, fatu- rar alguma grana depois de tudo isso vendendo o bar pra um incauto – sim, a expressão correta é mesmo know how ), per- cebo que aquelas casas como bares eram mesmo imperfeitas, improváveis, impensáveis e impossíveis: pequenas demais e localizadas em vizinhançasfamília. Vizinhanças-família são o Inimigo Número 1 dos bares. Nelas, não há bar que resista. Pensando bem, a mulher loira em cuja mesa eu havia escarra- do tinha feito um favor em não nos alugar o imóvel. Não dura- ríamos seis meses naquela casa da Ramiro quase Independên- cia, casinha pequena, velha e colada a um prédio superfamília.
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