27 Foi o Marcos quem descobriu o casarão da Barros Cassal. Encontrei a casa. Disse enquanto comíamos um à la mi- nuta no Centro (alguns hábitos a gente custa a abandonar). Terminado o almoço passamos na imobiliária, pegamos a chave e fomos olhar a casa. Depois de tantas decepções, eu já andava incrédulo. Abrimos o antigo portão de ferro trabalhado e subimos, o Marcos e eu, os degraus da escada lateral que levava à porta. Lá dentro, janelas cerradas, eletricidade cortada, tudo era muito escuro, um breu, mas chamou a atenção a altu- ra do pé direito. Os janelões foram abertos e a luz invadiu a casa. Caminhamos pelos aposentos fazendo o habitual desenho mental do bar e percebi que tínhamos de fato en- contrado o lugar certo. Corri pela casa gritando u-hu acha- mos! e, de repente, meu pé afundou no assoalho podre. Mas vamos ter que trocar o piso, tá todo comido de cupim. Advertiu o Marcos, já fazendo os cálculos mentais de quanto gastaríamos na reforma. Vai dar. Completou. A casa era velha e desgastada, o aluguel, uma barbada, e o proprietário, o enigmático Dr. K, estava disposto a qualquer negócio para faturar mais algum naquele sobrado do início do século passado, caindo aos pedaços, que ele já alugava pra dois locatários. Uma lavanderia ocupava a parte térrea princi- pal e um barbeiro, umas das salas da frente, o tradicional Sa- lão Gomes, fazendo barba, cabelo e bigode de respeitosos ci- dadãos porto-alegrenses desde mil oitocentos e antigamente. O piso superior já tinha sido, dentre outras atividades, puteiro e pensão de moças, ferragem e casa de massagem, não neces- sariamente nessa ordem. Iniciava por um hall que levava a uma saleta com janela, à esquerda, e, mais adiante, a um gran- de salão com sacada pra rua e corredor na outra extremidade. Pelo corredor chegava-se a duas peças interligadas por uma

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