28 porta dupla, à cozinha e a um terceiro aposento, mais amplo, com três grandes janelas que davam pro pátio dos fundos. E tinha o banheiro. Pra chegar à última peça, uma salinha com janelas pequenas, era preciso atravessar o banheiro. Por isso, uma parede tinha sido construída dentro dele, dividindo-o em toda a sua extensão e formando um novo corredor, como uma miniatura do primeiro. Esse corredor emminiatura, alienígena à arquitetura original da casa, levava, à direita, à entrada do banheiro e, ao fundo, à salinha, de onde uma porta se abria ao pátio com duas árvores (uma delas um limoeiro) brotadas não sei se da terra cinzenta ou do próprio concreto daquele jardim underground suspenso. Uma escadinha de cimento colada ao paredão que limitava o terreno e corria em paralelo à casa pelo lado direito dava no pátio do primeiro piso e, a seguir, no por- tão de entrada, fechando o ciclo labiríntico do casarão. Os vizinhos diziam que a casa era maldita. Tirando o cen- tenário Gomes – ele mesmo quase um fantasma – nenhum ne- gócio dava certo naquele ponto. Durante a existência do bar, alguns clientes com inclinações místicas chegaram a dizer que sentiam a presença de espíritos por ali. Espíritos atraídos por antigos vícios de álcool e fumo, povoando a casa junto aos vivos. Eu mesmo, que dificilmente poderia ser classificado de crente, sempre que ficava sozinho na casa ouvia sussurros e passos misteriosos que me faziam pensar que havia mais alguém ali. Numa ocasião, tive também uma espécie de visão fantasmagórica. Durante uma das muitas e tediosas esperas pela entrega da bebida, atividade – se é que podemos chamar algo tão maçante de atividade – que me marcaria como uma das coisas mais chatas de toda a história do bar, uma imagem, algo sobrenatural, algo maconheira, misto de espiritismo e do filme Rebecca, a Mulher Inesquecível, me viria, pálida e perturbadora, envolta em brumas como num filme de terror: depois de ouvir os usuais passos e sussurros, caminhava no
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