29 corredor em direção à peça dos fundos, quando tive a visão de uma mulher misteriosa. Usava um longo vestido branco (igual ao que a Joan Fontaine usa na cena do baile, causando um ata- que no marido, o Lawrence Olivier) e estava de pé, ao lado de uma cama enorme. Cortinas brancas pendiam das três janelas do aposento. Como num sonho em que sabemos as coisas a priori, eu soube que ela tinha sido a dona da casa e que aquele era o seu quarto. A visão durou apenas um segundo, a dura- ção de um passo no corredor. Quando entrei na peça, só vi o de sempre: mesas e cadeiras, engradados de cerveja, copos plásticos amassados, baganas de cigarro e a sujeira da noite anterior. Rebecca já tinha desaparecido. Mas naquele primeiro dia na casa, na primavera de 1992, com o pé encravado na madeira podre do assoalho, os fantas- mas não me preocupavam. As únicas questões que ocupavam meus pensamentos eram estritamente materiais e me afligiam muito mais. A casa era velha, necessitaria de muitas reformas, algumas imediatas. Mas a casa era grande, maldita, misterio- sa, cheia de portas e possibilidades. Perto a uma avenida mo- vimentada, numa via de acesso à rodoviária, ao rio, às putas, num bairro nada família. Nas ruas abaixo, cabarés e puteiros dividiam o espaço na ronda noturna com os botecos de pin- ga dos sobrados e prédios antigos; na esquina da frente, uma tradicional choperia servia filés e bebida gelada a notívagos da velha guarda e, na avenida acima, uma lancheria fuleira vendia pastel, xis e cerveja barata. Faltava saber do interesse do proprietário. No dia em que fomos entregar os documentos pra fechar o negócio, me pre- parei desde a rua, acumulando saliva e catarro na boca, caso ouvisse um não do agente imobiliário. Estava preparado pra cusparada terrorista quando o cara diz: Tudo certo, amanhã vocês podem pegar a chave. Engoli tudo, faceiro.
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