LUÍS RUBIRA Vitor Ramil – Nascer leva tempo SER O QUE SE É Sete horas da noite. Kleber Pons Ramil, um uruguaio (filho de um espa- nhol da região da Galícia) e Dalva Del Pino Alves, uma brasileira (cuja mãe é uruguaia), estão na sala de uma casa com pátios internos, assoalho de madeira e escaiolas. Esta casa se encontra no extremo sul do Brasil, na cidade cujo nome provém de uma embarcação de couro, descrita no século XIX por um naturalista francês em seu Voyage au Rio Grande do Sul 1 . Enquanto Kleber e Dalva tomam mate, essa “bebida amarga da raça” 2 , Vitor Ramil está com seu violão no corredor da casa. Ali ele inicia a compor uma canção na qual a letra trará em primeiro plano a valorização da família e da cidade que impregnou o seu imaginário. Todavia, naquele momento em que faz os primeiros acordes, Vitor ainda ignora que “Satolep” tomará cada vez mais corpo em sua criação; tendo 19 anos e estando em dúvida se vai ou não se profissionalizar como músico, ele tampouco sonha que terá de elaborar uma concepção estética que dê conta do lugar que ocupa no mundo e confira um sentido para a sua criação como artista. A casa da década de 1920; a influência de uma cidade que no século XIX atingiu sua opulência econômica; o clima temperado da região ao sul de um país conhecido como tropical; o fato de haver crescido num ambiente familiar complexo e polifônico, estendido entre a língua portuguesa e espanhola; o gos- to pela literatura; enfim, todos os elementos que irão caracterizar a singularida- de artística de Vitor Ramil estarão distantes de seu primeiro disco. Entretanto, se uma busca de si mesmo e de uma arte singular somente será intensificada após o lançamento de Estrela, estrela (1981), então quem era aquele adoles- cente? Como chegou e o que deixou registrado nesse álbum lançado por uma grande gravadora, a nível nacional? ... 1 Escreve Saint-Hilaire (1779-1859) a propósito da embarcação que viu sendo utilizada na região compreendida entre Montevidéu (Uruguai) e Rio Grande (Brasil): “A pelota (...) é simplesmente um couro cru ligado nas quatro pontas e que, desse modo, forma um barco (...). Enche-se a pelota de objetos, ata-se nelas uma corda ou tira de couro; um homem a nado, prende a corda entre os dentes e [a] faz passar (...). Eu mesmo atravessei o rio sentado numa pelota e cheguei (...) à outra margem”. (SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul , p. 269). 2 VARGAS, João da Cunha. Deixando o pago . Trecho do poema Chimarrão .
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