LUÍS RUBIRA Vitor Ramil – Nascer leva tempo Meu pai era rígido, com um grande senso de ho- nestidade, e nos passou muito isso, enquanto a mãe dava ênfase à união da família, insistindo que todos os irmãos devem ser amigos. 6 Além do gosto musical, Kleber também legou à família a cultura uruguaia. Sempre que possível, tomava com os filhos e a esposa o rumo de Montevi- déu. A viagem por um território de planuras e amplos horizontes normalmente ocorria em julho. Velhas e esfumaçadas casas de tango, Cafés movimentados: a cultura do pai marcaria o imaginário de Vitor e transpareceria em seu livro de estreia lançado em 1995: Calle Asencio. Todo o movimento e toda a cor de Montevideo. Descoberto o Uruguai, eu jamais esqueceria as gra- des e sombras do Hotel Florida. Hotel Florida. Toda a quietude; todo o negro, todo o dourado, todo o cinza; todas as grades e sombras de Montevideo. “Calefacción, ascensor, sí señor”. Do outro lado do saguão ao fundo da poltrona de couro, as vozes de Ahab e de um velho recepcio- nista me chegavam desprovidas de peso (...). O es- panhol era então o idioma da sabedoria e da obscu- ridade. O espanhol era o idioma do silêncio (...) o idioma do pensamento e do tempo. As manhãs de inverno no Uruguai eram todas as manhãs de inverno de Satolep reunidas e aper- feiçoadas. Entráramos na parrillada e sentáramos logo na pri- meira mesa, perto do fogo (...), queria que eu visse 6 “Vitor Ramil: sem pressa, ele fez da música seu projeto de vida”, Zero Hora , 2/9/1984.

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