LUÍS RUBIRA Vitor Ramil – Nascer leva tempo De fato ele não estava preocupado e nem dependia dos festivais. Vitor rea- lizava o sonho de muitos músicos da época: o de ter um disco lançado por uma grande gravadora em nível nacional. A materialização desse sonho foi noticiada por um jornal de sua cidade natal em 17 de julho de 1981: “Vitor Hugo Ramil, cantor-compositor pelotense lança seu primeiro disco” 39 . Chegava às lojas a obra de um jovem de 19 anos, contando com arranjos de orquestra de Wagner Tiso e Egberto Gismonti (que recebeu pessoalmente Vitor para tratar do arranjo de uma de suas músicas) 40 , participações especiais de Zizi Possi e Tetê Espíndola, e com uma série de talentosos instrumentistas. Algo pouco comum, sobretudo para alguém que não havia corrido atrás das gravadoras e que, além disso, não faria concessões ao mercado musical em detrimento de suas ideias e da arte que ele buscava desenvolver – como ficava claro já naquele ano: Sou exigente, e algumas pessoas me criticam por isso. Sem querer fazer comparações, quando João Gilberto é perfeccionista, é exigente ao máximo, dizem que ele é um gênio, que é excêntrico. Para mim dizem que sou metidinho. Isso é um erro. Acho que preciso ser exigente, porque o que está em jogo é o meu trabalho. Por exemplo, acham que eu, que estou começando, não deveria ser tão inci- sivo quanto faço certas exigências à gravadora 41 . ... Como compreender hoje aquele álbum lançado no dia 21 de julho de 1981, em Porto Alegre, no Teatro Renascença? Por que Estrela, estrela foi tão bem recebido na época? O que levou Vitor a praticamente negar essa obra pouco tempo depois de seu lançamento? A meu ver as respostas para essas questões já se encontravam numa frase escrita por ele no encarte do disco: “Estrela, Estrela é apenas um referencial solitário para o universo medir sua existência. Existe 39 Idem . 40 “Nos conhecemos um dia de manhã quando fui até a casa dele conversar sobre o arranjo de ‘Aldeia’. Gismonti já estava com uma fita minha super mal gravada em mini-cassete. No entanto ele achou ‘um barato’. Tomamos um cafezinho. Ele me perguntou que tipo de arranjo eu queria. Conversamos bastante sobre música, me deu alguns conselhos e combinamos sua participação no meu disco. Infelizmente ele teve que ir para a Europa e não pudemos gravar juntos”. ( Idem ). 41 “Vitor Ramil quer muita invenção e pouca rotina”, Zero Hora , 21/7/1981.
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