47 46 como existe um rio, um gesto, o si bemol, o pampa, ou uma estrela esquecida”. Refletindo sobre essa frase com a qual Vitor definia Estrela, estrela na época (na qual, curiosamente, ele incluía a palavra “pampa”, texto que, ademais, assinava como “Vitor Hugo”) 42 , e pensando-a em relação ao Vitor que conheceríamos de seu segundo disco em diante, podemos dizer em poucas linhas: Estrela, estrela é o disco de um adolescente brilhante, mas ainda em busca de identidade, longe de uma linguagem artística própria. Uma obra que se apresenta como algo que exis- te tanto quanto outros referenciais (um rio, um gesto, o si bemol), faz ver que não há, propriamente, uma assinatura no disco. E restar indiferenciado é radicalmente o oposto do caminho da individuação, da autenticidade. Ao mesmo tempo, e aqui parece residir o valor de Estrela, estrela , estar tão confundido com a “paisagem” é uma das chaves que explica o sucesso des- se disco entre o público. Vitor Ramil funcionava, ali, como uma esponja capaz de assimilar um certo modo de fazer canções. Não é à toa que até mesmo na gravadora corria um boato de que ele seria o “Milton Nascimento da nova ge- ração”. O que havia nas letras dessas músicas que começaram a ser compostas por volta dos quatorze anos? A faixa de abertura ( Assim, assim ), cuja letra é de Kledir Ramil, trata de um tema bastante comum em canções: a separação entre duas pessoas. Canção escolhida por Vitor como a primeira do disco, há nela pelo menos uma per- cepção que demonstra maturidade sentimental: o sujeito da letra deixa claro que ter um relacionamento com alguém sem que afetos profundos estejam envolvidos é meramente fugir de si mesmo. Dirigindo-se à pessoa com a qual se envolvera, é categórico: Pra que disfarçar nossa solidão? Se a faixa de abertura traz esse problema, a última canção do disco ( Epílo- go ) reafirma que relacionar-se com uma pessoa apenas pela beleza física e sem os sentimentos é como tocar em “carne e osso sem tempero”. Na letra dessas duas canções há, portanto, uma necessidade de afastar-se dos relacionamentos superficiais e ir em busca de si, tal como dito em Assim, assim : Estou de saída / vou reinventar minha vida. 42 Devo essas duas observações a Vitor Ramil. Ele informou, ademais, que o “H” em “Hugo” é uma clave de sol.
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