27 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS Marina Camargo (1980) é artista visual, trabalha com fotografia, desenho e vídeo. Cursou graduação e mestrado em Artes Visuais no Instituto de Artes (UFRGS) e pós-graduação em Cultura Visual na Universidad de Barcelona (Espanha). Em 2010-2011, viveu em Munique (Alemanha) como artista-bolsista do DAAD, na ADBK. www.marinacamargo.com Imagens: http://www.dropbox.com/ gallery/6055968/1/sehensucht-muenchen?h=e37b30 Como se a presença das montanhas, a alguns quilômetros de distância de Munique, alterasse ou determinasse o modo de pensar de quem vive ali. Ainda que as montanhas tenham uma presença sublime por si mesmas, a ideia que se forma a partir de imagens representadas dos Alpes é essencial- mente kitsch (será que por sua beleza exagerada? Ou seria por causa da repeti- ção exaustiva dessas imagens como sou- venirs espalhados por todo o mundo?). Em antiquários, encontrei fotos e cartões postais, arquivos de lembranças catalogadas em categorias, como paisa- gens, família, cidades. Ali, nesses acervos de memórias abandonadas, criei pouco a pouco o meu imaginário sobre os Alpes, formando uma coleção dessas imagens e lembranças guardadas ou enviadas por correio ao longo das últimas décadas. E então pintei as fotos e os postais, cobrin- do de preto todas as imagens dos Alpes, restando as silhuetas das montanhas e o céu de cada paisagem representada 4 . Apagar as imagens dos Alpes vi- rou uma obsessão para mim, como um desejo de ver as montanhas de outro modo (além de sua vertiginosa bele- za) ou de tentar percebê-las para além de suas referências históricas. A minha intervenção ocorre apenas sobre a re- presentação desses lugares. Seria como apagar aquilo que se deseja ver — ou como um exercício inútil entre tentar lembrar e esquecer. NOTAS 1 p. 233 - MUMFORD, Lewis. A cidade na História: suas origens, transformações e perspectivas. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 2 “Do ponto de vista do urbanismo e da política, Roma continua sendo uma lição significativa sobre o que se deve evitar: sua história apresenta uma série de sinais clássicos de perigo a nos avisar sobre quando a vida semove na direção errada.” p. 266 - MUMFORD, Lewis. Idem. 3 “Arte Degenerada” ( Entartete Kunst ) foi a denominação usada como título da exposição organizada pelos nazistas em 1937, que teve lugar inicialmente nomuseu Haus der Kunst , como intuito demostrar a artemoderna como “desvirtuada” e de formar uma opinião pública contra omodernismo. 4 Trabalho “Oblivion” (esquecimento), 2011. * [ Sehnsucht é uma palavra alemã típica da cultura romântica, que não teria tradução exata, mas indica saudade por alguma coisa intangível. Lembra o conceito de nostalgia, mas enquanto esta é umdesejo de reapropriar-se do passado, com frequência ligado a objetos precisos, o termo Sehnsucht indica a busca de alguma coisa indefinida no futuro. Poderia- se traduzir o termo Sehnsucht como o “desejo de desejo”. De fato, deriva das palavras “Sehnen”, que vema ser o “desejo ardente”, e de “Sucht”, que significa vício ou busca. Literalmente, seria uma “dependência de desejo” ou uma constante saudade que leva o ser humano a não se contentar comaquilo que consegue, mas quemove até novos desafios ou objetivos, transformando esse sentimento emuma força destrutiva e autodestrutiva.] Fonte: Wikipedia emespanhol.
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