41 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS A autoafirmação social Em cada um desses momentos históri- cos, a sociedade se afirmava negando e destruindo grande parte das represen- tações dos períodos anteriores. Quase como um adolescente que nega suas origens para se transformar em adul- to. O resultado desse processo são os conflitos urbanos que podem ser vi- sualizados por toda a cidade. Feridas que foram criadas em momentos de transformação social e que, até hoje, em muitos casos, ainda estão abertas, nos causando sensações de desagrado e mal-estar. Hoje, quando observamos determinados espaços e os compara- mos com fotografias antigas nos damos conta do quanto se perdeu em quali- dade de vida por meio de intervenções irreversíveis e consideradas inovadoras em um determinado período. Esses locais, hoje bastante degra- dados, pouco ocupados ou muitas ve- zes abandonados, necessitam, para sua recuperação, de novos projetos com soluções e alternativas integradoras, visando a sua qualificação e retomada pela sociedade. Uma dessas alternativas é a arte urbana. A arte urbana como proposta curativa Casos como o do projeto Museu a Céu Aberto, na cidade de São Paulo, de- monstram como a arte pode agir como um instrumento de recuperação urbana ao transmitir a um espaço degradado características que o torna novamente atrativo ao homem, que volta a ocupá-lo e a interagir com ele. Em suas mais varia- das manifestações, a arte tem o poder de mudar a leitura dos espaços. Um lo- cal com ausência de significado pode, por meio da arte, tornar-se rico em in- formações e cheio de simbologias. Nos- sa cidade está repleta de grandes viadu- tos que, pintados, predominantemente de cinza, com algumas exceções, trans- formaram-se, assim como o seu entor- no imediato, em locais sem atrativos visuais, brutalizados pelo peso e massa do concreto armado, e naturalmente destinados às atividades marginais. Em Porto Alegre, temos centenas de casos específicos que são passíveis de intervenções artísticas. É o caso, por exemplo, do entorno da antiga sede da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, um belo prédio eclético, rico em ornamentação, que está atual- mente em processo de restauração. Se observarmos registros históricos, vere- mos que no passado sua situação era diferente. Construído na esquina da Rua Riachuelo com a Rua General Câmara, no centro de Porto Alegre, desfrutava de uma posição de destaque perante todo o conjunto urbano que o cerca- va. A partir da década de 1960, com a substituição das duas antigas e singe- las residências localizadas nos terrenos laterais por dois grandes edifícios mo- dernistas, a edificação ficou cercada por paredões que a oprimem e a isolam do
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