URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS Num pequeno texto intitulado Comunidade , Kafka nos apresenta a his- tória de cinco amigos que vivem juntos, pacificamente, até a chegada de um sex- to elemento, que é sentida por eles como intromissão. Embora não o conheçam, não o querem aceitar e não entendem porque ele, o sexto, força sua entrada em um espaço onde não é querido nem to- lerado. “ Mas, como ensinar tudo isto ao sexto, posto que longas explicações im- plicariam já uma aceitação de nosso cír- culo? É preferível não explicar nada e não o aceitar. Por muito que franza os lábios, afastamo-lo, empurrando-o com o coto- velo, mas por mais que o façamos, volta outra vez.” ( Comunidade . Kafka. Narrati- vas do Espólio). Kehl traz para a discussão o que o também psicanalista, francês, Philli- pe Julien, questiona: a possibilidade de identificação fraterna entre semelhan- tes, a não ser à custa da segregação de outros, um pouco mais distantes, que portem a marca da diferença intolerá- vel. Ele destaca que todas as formas de racismo, intolerância étnica, religiosa ou nacional fundam-se na tentativa de fazer do semelhante um igual, ao preço de fazer do diferente um absoluto es- tranho. E lembra que o semelhante é sempre semelhante na diferença. Embora vivamos em uma épo- ca de intensa polifonia, algumas vozes insistem na tentativa de se sobrepor às demais, como se elas não existissem . É o caso das grandes empresas de mass media , que historicamente monopoli- zam esse mercado, e dos próprios par- tidos políticos tradicionais, que a cada dia sofrem maiores interferências dos insistentes murmúrios, vindos de di- versos cantos, que dão outras notícias, falam de outras formas de vida e de ou- tros mundos possíveis. 19
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