30 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS bernardo de souza Sob constante ameaça Cenário de muitas e ambiciosas revo- luções, o “curto século XX” (Eric Hobs- bawn) foi marcado por uma sucessão de eventos atrozes: teve início em 1914, com a primeira Grande Guerra, e foi abreviado em 1991, com o colapso da URSS, sinalizando assim o fim da Guerra Fria; no curso de sua longa e conflagra- da trajetória, jamais a humanidade ha- via experimentado tamanha derrama de sangue em tão exíguo espaço de tempo. De lá para cá, incessantes confli- tos bélicos vêm marcando de maneira cruel e indelével nossa história recente, em particular a do Oriente Médio, a da Europa Oriental e a do continente Afri- cano, haja vista o insolúvel conflito en- tre Israel e Palestina, a ultratecnológica guerra do Golfo, o brutal genocídio na Sérvia, a obtusa invasão do Iraque e os recentes movimentos revolucionários que configuraram a chamada Primave- ra Árabe, para não falar das inúmeras e esparsas guerras civis a irromperem, de maneira intermitente, sobre a superfície do globo terrestre. A festejada modernidade, res- ponsável por impulsionar o desenvolvi- mento do Ocidente desde a Revolução Industrial, foi incapaz de frear os ins- tintos nefastos de sociedades econô- mica e culturalmente desiguais, cujas práticas políticas destituídas de valores humanistas sólidos permaneceram car- regadas da selvageria típica do mundo pré-moderno. Nem mesmo o avanço científico, iluminado pelo discurso repu- blicano, resultou num mundo tão mais estável quanto democrático, maduro politicamente, pouco suscetível aos re- veses econômicos e menos vulnerável às vicissitudes da natureza. Sob o signo do medo, atravessamos o último milê- nio acossados pelo terrorismo, impac- tados pelas tsunamis, atordoados pelo disparo de mísseis, desestabilizados pelas bolsas de valores e confrontados com imagens da barbárie. Neste contexto, o debate sobre a segurança, longe de estar confinado aos domínios do Estado e a seu mono- pólio sobre o uso da força – quer seja através de suas instâncias de contro- le e garantia do bem-estar social ou de suas “instituições totais” (Foucault): hospitais, prisões, manicômios –, re- mete à primitiva condição humana de desamparo e grande fragilidade ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça: susto e terror frente ao desconhecido. O medo, reação a toda a sorte de inseguranças que, em maior ou menor escala, experimentamos ao longo da vida, tornou-se, nas socieda- des contemporâneas, um sentimento desconfortavelmente familiar, contra o qual lutamos lançando mão de um sem-fim de aparatos bélicos, de uma extensa parafernália tecnológica e dos mais variados expedientes de proteção: são ogivas nucleares, armas biológicas, câmeras de vigilância, carros blindados, sistemas de alarme, antiansiolíticos, se- nhas bancárias, seguros de vida, de de- semprego, contra incêndio, entre tan- tos outros. As guerras, o terrorismo, o cri- me organizado e a violência urbana são apenas as mais evidentes facetas de uma ampla problemática política, econômica e social, a qual se desdobra em sintomas bem menos tangíveis, de ordem psíquica ou caráter individual, cujas raízes se revelam tanto a partir do preconceito de classe, da intolerância religiosa, de gênero ou racial, quan- to através das fobias sociais, da busca por ambientes domésticos seguros (comfort zones) ou dos relacionamen- tos virtuais como estratégia de preser- vação da integridade física.

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