31 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS O Medo e o Totalitarismo Se o temido Leviatã de Thomas Hobbes – monstro-síntese do contrato social – não foi por completo eficaz como antí- doto ao estado de natureza e sua “guer- ra de todos contra todos” (1974:82), pouco surpreende que a civilização a construir o Estado Democrático de Di- reito também tenha sido aquela a per- petrar o holocausto nazista. O clima de horror absoluto a imperar na Alemanha pré-segunda guerra foi evidenciado através da lo- cução em off numa das cenas d’O Ovo da Serpente (1977, EUA), filme dirigido por Ingmar Bergman que, ao abordar a gênese e a ascensão do fascismo, ante- cipa a tragédia sem precedentes pres- tes a eclodir: “Terça-feira, 6 de novembro. Os jornais estão enegrecidos pelo medo, ameaças e rumores. O governo parece impoten- te. Um confronto entre os partidos pa- rece ser inevitável. Apesar de tudo isso, as pessoas vão trabalhar, a chuva nun- ca para, e o medo cresce como o vapor que emana das pedras. Pode ser sentido como um cheiro penetrante. Todos o suportam como um veneno, um veneno de efeito lento, que se percebe apenas no pulso acelerado ou como um espas- mo de náusea.” Empleno século XXI, omedo per- manece uma arma poderosa contra os princípios de liberté , égalité , fraternité , haja vista o ataque terrorista às Torres Gêmeas em 11 de setembro, em Nova Iorque, e seus insidiosos efeitos sobre as liberdades individuais. A suspensão de direitos assegurados pela constituição norte-americana através da Lei Patrió- tica – que concedeu poderes extraor- dinários aos órgãos de segurança, per- mitindo mapeamentos raciais e étnicos, além do monitoramento das rotinas do cidadão comum –, despertou um pro- fundo sentimento de paranoia entre a população dos Estados Unidos. Sofrendo abalos sistemáticos em um mundo que, ao superar o fantasma comunista, acabou por abandonar suas mais caras utopias de transformação social, a democracia viu prosperar um projeto econômico altamente exclu- dente, cujos vícios políticos revelaram-se semelhantes àqueles combatidos nos regimes totalitários, isto é, corrupção e concentração de renda nas altas esferas do poder. Na ausência de um inimigo co- mum, a sociedade ocidental que emer- giu vis-à-vis à queda do muro de Berlim em 1989 adotou sem ressalvas o regime capitalista e prontamente nomeou seus mais novos fantasmas: a partir de então, árabes e muçulmanos passaram a encar- nar a face contemporânea do mal. Os Meios de Comunicação de Massa e o Poder Simbólico Batizada Tempestade noDeserto , a opera- ção deflagrada na Guerra do Golfo, em 1990, foi a primeira de uma série de in- vestidas militares norte-americanas no Oriente Médio, uma zona culturalmen- te conturbada desde a primeira gran- de guerra, cujas reservas de petróleo são emblemáticas não apenas de uma batalha política, mas do esgotamento de um modelo econômico sustentado pelo uso de energias fósseis não reno- váveis. Primeiro conflito bélico televi- sionado em tempo real, o massacre de mais de cem mil soldados iraquia- nos obteve repercussão internacional através da rede americana CNN, numa cobertura jornalística tão contaminada pelo parti pris que emulava a lógica de um videogame yankee .
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