40 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS Toda essa profusão de telas ele- trônicas já seria o suficiente, mas não podemos esquecer do aparelho que carregamos conosco, no bolso ou na bolsa, imprescindível para que o dia corra bem. De meia em meia hora, as vezes mais, as vezes menos, verificamos o celular, ou os celulares e o tablet, para ver alguma mensagem de texto ou foto recebida, para atender a um convite para uma partida de Draw Something ou Song Pop 2 para ver o horário ou a temperatura, para checar as novas fotos de nossos amigos no Instagram ou por- que o Facebook insiste em enviar push- -up notices, mesmo quando tentamos a todo custo desligar tais notificações. Mundo Hipertélico e mundo do espetáculo A este mundo totalmente ligado e co- nectado às telas eletrônicas, Lipovetsky e Serroy chamam de mundo hipertélico. Os autores, ao afirmarem que vivemos, hoje, em uma sociedade hipermoderna, propõem um retorno aos valores postos pela modernidade, mas vividos de forma exacerbada, principalmente pela sua di- nâmica e hipervelocidade, de onde sur- ge o prefixo hiper. Nesta nova socieda- de, que emerge a partir dos anos 2000, a aceleração da vida cotidiana é uma característica constante, ao lado da pre- sença das conexões globais imediatas e a exaltação do tempo presente, em favor do passado ou do futuro. Dentro deste panorama, leva- dos pela comunicação em nível glo- bal e pelas tecnologias da informação, passamos a compartilhar uma cultura- -mundo, calcada na cultura da tela, ou tela-mundo. Constitui-se assim um mundo hipertélico, que tudo vê, tudo compartilha, tudo torna visível, alteran- do a maneira do indivíduo ser e estar no mundo. “Nunca o homem dispôs de tantas telas não apenas para ver o mundo, mas para viver sua própria vida” , colocam Lipovetsky e Serroy. A psicanalista Maria Rita Kehl, ao lançar um olhar sobre o contexto con- temporâneo, retorna ao conceito de sociedade do espetáculo, cunhado por Guy Debord nos anos 1970. Kehl defen- de que, neste mundo onde a imagem, transformada também em mercadoria, nos acompanha e nos cerca por todos os lados, ainda podemos falar em uma sociedade do espetáculo, baseada na imagem. “O que se situa além do espe- táculo deveria ser a vida. Mas, em nos- sa sociedade, a vida não está além do espetáculo. O espetáculo abarca toda a superfície da vida” , pontua a autora. Ela segue: “’Nosso’ espetáculo abarca toda a extensão da vida social, porque se traduz na forma de imagens industria- lizadas; imagens que são mercadorias e, portanto, funcionam socialmente como fetiches” . A imagemmercadoria encontra-se na televisão do elevador, do restaurante Imersos em uma paisagem urbana construída por telas eletrônicas, corremos o risco de, sob a armadilha da visibilidade, perdermos a nossa liberdade de ser longe das redes virtuais. LUÍSA KIEFER

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