41 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS e do ônibus. Ali, explicitamente como propaganda. Já as imagens que produ- zimos diariamente por meio dos nossos próprios aparelhos eletrônicos, e com- partilhamos via redes sociais, também se tornam mercadorias, no sentido de que passam a ser uma forma de vender uma imagem de vida ideal – que nem sem- pre, por trás das telas, é a verdadeira. Na verdade, nossas câmeras não mostram apenas vidas ideais, mas espetacularizam todo o banal da vida cotidiana. Por que precisamos compartilhar fotos dos nos- sos pés na areia? Para mostrar ao outro que estamos de férias, emalgum lugar in- crível, aproveitando umtempo bom. Mas, perdemos mais tempo dizendo que esta- mos lá para os quatro cantos do mundo do que realmente estando lá. É dentro dessa lógica que tanto Kehl quanto Lipovetsky defendem que entramos numa era da visibilidade, em que estar na imagem é o que interes- sa. “Existir, hoje, é ‘estar na imagem’, de acordo com uma estranha lógica da visibilidade que estabelece, auto- maticamente, ‘o que é bom aparece/o que aparece é bom’” , destaca Kehl. Em outras palavras Lipovetsky e Serroy con- tribuem para o mesmo pensamento: “O próprio mundo entrou no sistema da celebridade. O que não dá imagem e não é midiatizado, não existe, e isso até nas ilhas desertas” . Todos buscamos nossos minu- tos de glória e, como sabiamente disse Andy Warhol ainda nos anos 1960, to- dos teríamos os nossos 15 minutos de fama, esse momento chegou. O mundo hipertélico é o responsável por propor- cionar estes minutos. Nas telas que nos cercam, temos a possibilidade de apa- recer, circular, tornar públicas as nossas vidas. Entrar na lógica da imagem e participar do espetáculo. O poder está ao nosso alcance. No mundo das telas, qualquer um pode virar celebridade da noite para o dia – aliás, Woody Allen ao criar o personagem Leopoldo Pisanello, interpretado por Roberto Benigni, em Para Roma com Amor , trata essa ques- tão de forma irônica e muito bem-hu- morada. Talvez, um dos únicos pontos altos do filme. Mas voltemos: não seria essa ló- gica da visibilidade exatamente onde reside uma espécie de fobia própria dos nossos tempos? Ou, a lógica da visibili- dade seria apenas um reflexo, e a fobia consequência desta sociedade hiperve- loz e telânica? Não aproveitamos mais um en- contro com os amigos, mas compar- tilhamos cada momento do encontro através de fotos pelo Instagram. É mais importante registrar e compartilhar, do que dividir o momento presente. Em uma mesa de bar, hoje em dia, geral- mente o número de celulares em cima da mesa é proporcional, ou maior, ao número de copos de bebida. Como se essas telas não fossem o suficiente, ao fundo, na parede, está a televisão ligada, sempre invadindo o ambiente commais uma imagem e captando a nossa aten- ção, mesmo que involuntariamente. Visibilidade e privacidade Entregamo-nos ao mundo hipertélico como alternativa para continuarmos exis- tindo no mundo da imagem. Seguindo a lógica colocada por Kehl e Lipovetsky, compartilhamos nossas vidas em redes de informação e carregamos conosco, aonde formos, uma tela eletrônica capaz de nos conectar a este mundo virtual e suprir qualquer angústia, a qualquer mo- mento. Estar desconectado e longe das telas tornou-se um problema.
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=