10 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS sobra tempo para se cuidarem assim, pela janela. Um olhar de carinho no meio de um entorno que se imagina sempre mais hostil. A obsessão por ver a cidade por dentro, por ver a vista da janela dos outros, a estas alturas, já havia se trans- formado em projeto (ainda bem que tudo pode virar arte!). Numa flânerie às avessas, passei a perambular pelos apartamentos da cidade. Apartamentos de gente que não conhecia, mas onde identificava essa proximidade entre as janelas dos prédios. A cidade do aves- so. Já não me interessava mais pelas fachadas, pela vista de fora, conhecida de longa data e compartilhada por to- dos. Queria ver o outro lado, queria ver como vê o morador lá daquela janeli- nha que acaba de fechar a cortina. Será que ele se incomoda com a janela do vizinho tão perto? Será que são amigos ou pelo menos se conhecem? Nessas visitas e andanças, nem todos são receptivos, é claro. Afinal, além do tempo, cada vez mais escasso e contado na vida de cada um, receber um estranho em sua casa não é bem assim. Não seria um golpe, um assalto, um louco com intenções diabólicas? A insegurança reina, com tantas notí- cias de violência em todos os jornais. Mas depois de algumas explicações e de vencer olhares desconfiados e curio- sos de porteiros e zeladores, eu própria me surpreendi com a receptividade da maioria. Da maioria em uma certa re- gião da cidade, é interessante apontar. No centro e nas imediações, consegui LETÍCIA LAMPERT

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