9 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS vezes poderiam tecer longas descrições sobre nossos hábitos mais banais. – Conhece o vizinho da frente? – pergunto a uma moradora. – Não, ela me diz. – Quer dizer, conheço de vista. Não sei o nome, mas sei, por exemplo, que todo dia de manhã ele toma seu café na sacada e gosta de comer um pãozinho junto. Vejo ele quase todo dia, mais ou menos no mesmo horário. Mas o pessoal dali é meio esnobe, sabe? Quando veem que tem gente na jane- la da frente, já entram novamente em casa, nem cumprimentam. Fato é que é mesmo difícil esta- belecer esse tênue equilíbrio entre ver e ser visto, entre o que é bisbilhotice e o que é atenção, nessa intimidade for- çada que a configuração da cidade es- tabelece. Esse distanciamento criado, na verdade, nunca consegue ser tão grande a ponto de não ser tocado pela existência do outro. Ele está ali, muito próximo, querendo ou não. E assim ou- vimos barulhos, percebemos hábitos, trocamos olhares ou saudações. – Ali na frente mora uma senho- ra de idade, sozinha. Eu me preocupo com ela. Cuido dela daqui. Todo dia de manhã olho se ela abriu a janela. Então fico tranquila, sei que está tudo bem. Se um dia ela não abrir, é por que algo aconteceu – me conta outra moradora. Elas nunca se falam ou se encontram de fato. Na correria dos dias de hoje, só Cria-se um paradoxo: se a vista é efêmera, a situação em si é uma constante.

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