34 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS NOTAS 1 RIBEIRO, João apud FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa , p. 715. Curitiba: Positivo, 2004. 2 Frase retirada de uma entrevista produzida para o curta Quem é Toniolo? , de André Moraes e Caco Pacheco (2010). http://www.youtube.com/watch?v=vkUaoEnzTjc 3 “Occupy Wall Street é um movimento de resistência pacífico, sem líderes, formado por pessoas de muitas cores, gêneros e convicções políticas. A única coisa que temos em comum é que somos os 99% da população que não vai mais tolerar a ganância dos outros 1%.” Tradução livre de texto do site http://occupywallst.org/ 4 Little people in the city , de Slinkachu, http://little-people.blogspot.com.br/ 5 Entrevista concedida ao site Planeta Sustentável e publicada em setembro de 2012. A íntegra está em http:// planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cidade/entrevista-enrique-penalosa-defensor-bicicletas-sistema- diversificado-onibus-702248.shtml Clarissa Eidelwein e Kellen Lazzari trar espaço pra tudo que se vende (e se compra) nos apartamentos de 87 metros quadrados com três quartos. Assim como nas cidades, a parte social fica relegada a um segundo plano. A cidade, que desde a Antiguidade foi espaço de convivência e porto segu- ro para seus habitantes, no fim do século 20, passou a ser mero local de passagem de um lugar privado para outro, do traba- lho para o condomínio para o shopping, cada um em seu carro. A vida dos sonhos idealizada pelas grandes corporações. Ah, nos condomínios, além de toda a segu- rança ainda há grande áreas de convivên- cia para suprir a falta de espaço nas casas coladas uma as outras. Claro que existem outros tipos de condomínios, espaçosos e confortáveis, só que custam bem mais caro. Para Bauman (2007, p. 78), numa curiosa mudança de seu papel histórico e em desafio às intenções originais de seus construtores e às expectativas de seus moradores, nossas cidades se trans- formaram rapidamente de abrigos contra perigo em principal fonte desse mesmo perigo. “As cercas têm dois lados. O que está ‘dentro’ para as pessoas de um lado da cerca está ‘fora’ para pessoas do outro lado. Os moradores dos condomínios se cercam ‘fora’ da vida da cidade.” Mas se o consumismo como uma espécie de terapia é a alternativa para combater a insatisfação gerada pelo próprio sistema, uma parcela da popu- lação está empenhada em mostrar que não existe apenas porque consome. Vi- ver não é consumir. Na contramão da oferta da vida em condomínios, minici- dades, como solução de segurança para proteger seus bens vendidos como imprescindíveis, uma parcela da popu- lação está se organizando para ocupar os espaços públicos, parques, praças, auditórios, antes que sejam cercados e repassados para a iniciativa privada explorar. Alguns já foram. O objetivo é uma retomada da vida em comunida- de, de conhecer os vizinhos, resgate de um velho hábito já experimentado por moradores de apartamentos que passeiam com seus cães pelas ruas dos bairros, de tornar as áreas públicas hos- pitaleiras, espaços de convivência. Em Porto Alegre, entre muitos outros movimentos, destacam-se os pi- queniques noturnos nos parques com o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de iluminar e ocupar em vez de cercar. Iniciativas como estas atraem até mesmo os moradores de condomí- nios, desejosos por atravessar a cerca no sentido contrário depois de perceberem que só o que têm em comum com seus vizinhos é o que Bauman chama de para- noiamixofóbica. Para ele, se a segregação é oferecida e aceita como a cura radical para os perigos representados pelos es- tranhos, conviver comestes se torna cada vez mais difícil. “Os medos contemporâ- neos mais assustadores são os que nas- cemda incerteza existencial.” (2007, p. 97) Na maioria das ações de resgate da solidariedade nas cidades, as inter- venções urbanas estão inseridas no contexto de humanização dos espa- ços. Aliás, em Londres, bem antes da administração prever que a maior par- te dos investimentos para a Olimpía- da de 2012 seria no lado leste, o mais deteriorado, os artistas de rua, empur- rados pelos altos preços da moradia na parte mais nobre, de forma espon- tânea, já tinham iniciado a revitaliza- ção, senha para que a especulação imobiliária termine o trabalho, torne o preço dos imóveis impraticáveis para pessoas comuns e faça com que os verdadeiros autores da revitalização, migrem para outro local, iniciando novamente o processo. Há cidades, porém, que a inicia- tiva de torná-las mais aprazíveis parte dos próprios governantes, como deve- ria ser ao natural. Estas servem de ins- piração aos criadores dos movimentos sociais urbanos, como a Massa Crítica, que não se conformam com o rumo que grande parte das cidades seguiu, distante da solidariedade. Copenhage, na Dinamarca, é um exemplo emble- mático. Nos anos de 1960, o prefeito anunciou que fecharia o tráfego para veículos em uma das principais aveni- das da cidade, incentivando o convívio proporcionado por pessoas a pé ou de bicicleta. A população esbravejou con- tra a iniciativa, alegando que o clima
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